Aqui vou expressar minha opinião sobre a morte. E como acho que ela pode servir de guia, como um jato propulsor na busca do viver realmente uma vida, todos os dias, que seja a construção de sua própria subjetividade e história, única e linda.
Como um livro.
Desde que nascemos começamos a construir nossas próprias histórias. Erramos muitas vezes, mas enquanto estamos vivos, sempre HÁ a opção de mudar o rumo. De novas escolhas. Não importa sua idade, o que importa é que você tenha vivo esse desejo dentro de você.
Acredito que refletir sobre a própria vida é pensar constantemente na morte. Não de uma forma sofrida e terrível (como às vezes ela vem, principalmente quando perdemos quem amamos), mas pensar nela como um amuleto.
O tempo não volta. As escolhas que teremos capacidade de fazer todos os dias são as que nos levarão a viver uma coisa ou outra. E sim, são as escolhas diárias. As grandes conquistas estão presentes nas escolhas diárias, e nas pequenas escolhas– elas influenciam muito mais do que possamos imaginar.
Nossa vida é um somatório de pequenas escolhas, atitudes, posicionamentos, desejos.
Cada vez mais reflito sobre como deveríamos optar pelo DIA. Por todos os dias. Criamos a semana e os finais de semana, mas na verdade nossa vida ocorre todos os dias, sempre que temos a chance de acordar novamente pela manhã. Não importa se é um sábado, um domingo ou uma segunda-feira. A cada amanhecer é uma nova oportunidade de escolher diferente. Mudar de rumo. Ou continuar no mesmo.
Nem sempre as mudanças são boas. Depende muito da situação. Nada pode ser considerado como definitivo. Temos que ser flexíveis o bastante para estarmos sempre ajustando, a medida que também vamos mudando.
Vivemos tanto tentando nos encaixar em padrões pré-definidos. Precisamos disso ou daquilo. Depois de uma certa idade já se está “velho” para começar novamente. E tantos outros. Até que surgem alguns seres, algumas pessoas que desafiam totalmente essa lógica e mostram que pode ser diferente. Vivem suas vidas e conquistam coisas fora de padrões e vem mostrar a mentira que por vezes nos entrelaçamos.
Pode ser diferente.
Temos nossas próprias limitações, mas é possível sim trabalhar nelas se assim for o desejo. Mas trabalhar nelas por anos, por dias, e isso dá muito trabalho.
Porém se fosse tudo tão fácil assim de conquistar, qual seria a nossa luta? Nossa alegria na conquista? Qual seria a razão de estarmos aqui? Se tudo fosse jogado no colo?
Quem ou o quê decide o quanto de vida ainda temos?
Para os que tem alguma crença ou religião, existe um Deus. Para os que não, acreditam simplesmente no nada e na contingência do meio. Para outros é parte da vida, do universo, um momento estar aqui e o outro não. Ainda deve ter muitas outras formas de encarar, as quais desconheço.
Mas, sim. A morte é uma realidade e ela existe para todos nós. Ninguém foge porque tem medo dela. Ou porque fala dela. Existem muitas coisas que não conseguimos compreender. A angústia, o medo, o desespero, tudo pode existir, mas nada impede quando ela bate na porta.
Você estando vivendo bem ou mal; fazendo o que gosta ou não; nada impede que ela chegue.
Assusta né? Não queremos pensar que um dia iremos embora, morremos de medo do desconhecido, e principalmente desse. Mas por mais que esses sentimentos nos invadam, e ainda mais em momentos que perdemos quem amamos, deveríamos olhar para a morte como um amuleto.
Um amuleto que nos ajude a buscar a vida que acreditamos ser a melhor para nós mesmos. Um amuleto que nos ajude a parar de “procrastinar” nossa vida, e a continuar buscando nossas verdades todos os dias. Nossa melhor forma de viver. É complexo exatamente porquê é impossível ser feliz o tempo todo. Isso não faz parte da natureza humana, mas é possível viver realmente. Também para isso é necessário coragem.
Como construímos então novas visões e atributos? Acredito que é na PRÁTICA. Não construímos coragem se não passamos e enfrentamos a situação. Não construímos forças emocionais se não nos perdemos no caos interno. Tudo passa por um processo de construção. Acredito que poucas coisas chegam prontas. Nossa essência permanece, mas passamos a vida nos construindo de diversas formas
O questionamento de Freud (antes de morrer) permanece: Por que as pessoas buscam tanto a infelicidade, e quando a encontram se surpreendem?
Existem medidas para evitar a morte? Só na nossa mente. O ser humano e a forma como muitas vezes agimos, nos leva para longe do que realmente deveríamos fazer para viver uma vida com sentido, profunda e na busca intensa do nosso ser.
Atrasamos, adiamos, inventamos por vezes limitações mentais. Outras vezes elas são verdadeiras. Mas raramente assumimos mesmo de frente a ação e a busca. E mais raramente ainda existe uma disposição para enfrentar esse caminho.
Disposição mental. Por isso é tão importante nos fortalecermos mentalmente e compreendermos nossa dinâmica emocional.
A morte já está presente na vida quando negligenciamos quem somos- nossa subjetividade.
Entretanto algumas pessoas realmente conseguem viver e não somente sobreviver. Entregam seu ser em tudo que fazem, vivem intensamente e trazem para o outro algo diferente, transformador. No momento em que estão se realizando internamente, proporcionam ao outro também uma forma de realização, preenchimento. Contribuem tanto para si, como para o outro. Mas elas só conseguem isso quando seguem realmente seu coração. E seguir o coração aqui é se assumir como sujeito, subjetivo e único. São felizes e realizadas no que fazem.
Isso exclui as dificuldades? Isso exclui as limitações? Isso exclui as frustrações? Claro que não. Mas a parte difícil fica suportável quando está alinhado com o que você quer passar de dentro.
A vida e a morte andam juntas. Precisamos urgentemente pensar nelas como inseparáveis. Só há vida quando há morte. Pense nas flores de plástico, qual o brilho e a vida que elas possuem? Nenhum. Exatamente porquê elas não podem morrer.
Minha reflexão hoje foi inspirada nesses tempos difíceis que estamos vivendo. Tempos de pandemia. Tempos de perdas que poderiam ser evitadas se tivéssemos mais respeito ao outro. Ao espaço do outro e a liberdade do outro. Difícil demais. Ser humano em toda a sua beleza e complexidade.
Esse post é inspirado na morte do Paulo Gustavo. Ele realmente foi um ator que trouxe alegria a pessoas que mal conheceu. Ele realmente buscou em seu interior sua subjetividade e expressou ela ao mundo. Que ele descanse em paz agora, sabendo que cumpriu muito bem seu papel de ser nada menos que ele mesmo.
Aos que estão passando pelas maiores dores da perda de quem amam neste momento, deixo minha profunda consideração e sentimento.