Minha avó e o Alzheimer são coisas diferentes. A minha avó é Sujeito. O Alzheimer é Doença.
A minha avó é Vida, o Alzheimer é um tipo de Morte.
Pois ele simboliza a perda: da memória, da autonomia, das escolhas, e aos poucos, da vida.
Mas o sujeito que está por detrás desse acometimento infeliz ainda existe, se angustia e sofre com toda essa reviravolta.
Não deve ser fácil entender a finitude, e ainda mais se perceber neste local de perdas, cada vez maiores, de tudo que um dia se construiu para ser e para exercer. As perdas da idade já são difíceis, mas além disso ainda se fazem presentes as perdas que a própria doença traz.
Minha avó sempre Cuidou. Agora ela precisa se permitir Ser Cuidada. Como será esses momentos em que existe algo oposto do que sempre foi?
Como é quando isso existe para nós em conjunto com a saúde? Como será então lidar quando esta última já não se faz presente?
Difícil compreensão e inversão de papéis que a velhice traz, e que se tivermos sorte, todos nós um dia passaremos.
Já dizia Mario Quintana:
“Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!”
Mas e se devolvêssemos para as pessoas que sofrem do mal Alzheimer, mesmo que sutilmente, a função de cuidar? Se revivêssemos dentro deste ser tão imerso em um mar de sofrimento e dor, a sua função anterior à doença?
A psicóloga Ellen Langer e sua equipe de Harvard, no final dos anos 1970, realizaram uma série de experimentos com idosos em um asilo, pedindo que cuidassem de uma planta. Para os idosos em que foi dito que eram responsáveis pelo cuidado desta planta, os níveis de felicidade foram maiores que os idosos informados que a planta seria cuidada pelas enfermeiras do local. Os idosos que cuidaram estavam mais felizes, saudáveis e também viveram mais tempo.
O ato de cuidar de outro ser vivo melhorou significativamente a vida daquelas idosos.
O que o ato de cuidar pode nos dizer? Somos seres que cuidamos o tempo todo. Seja dos outros, da nossa própria vida, do nosso corpo, da nossa alimentação, do nosso trabalho, da nossa rotina. Estamos nessa posição de ação perante algo que é externo ou interno a nós. Perder isto deve ser extremamente difícil, e quando digo deve ser, é porque acho que ninguém sabe ao certo- até ter a própria experiência.
Mas uma um fato é claro: o sofrimento que existe nos idosos e em todas as pessoas que tem esta doença.
Não sei se dará certo fornecer a oportunidade “do cuidar” novamente à minha avó, de um jeito sútil, mas tentarei isso. Acho que toda tentativa de tirar o mal estar neste momento e fazer com que a pessoa viva o tempo que tem com dignidade e menos angústia (na medida do possível) é uma oportunidade de melhorar as coisas. As vezes temos forças e recursos internos para ajudar, outras não. A realidade e a mistura das relações é bem mais complexa de apenas dizer. As palavras são mais fáceis que as ações.
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história, e precisamos adquirir tudo que podemos para melhor a qualidade de vida de outro ser humano. Pensando. Repensando. Praticando. Agindo. Testando. Utilizando nossa energia vital para agir- dentro de nossas limitações.
Neste caso também é válido o que dizia Nelson Rodrigues “Mintam por misericórdia”. A pessoa não irá se lembrar de cuidar sempre de algo que lhe for fornecido, mas o lembrar diário vindo dos indivíduos externos para que ela continue cuidando pode trazer pelo menos uma pequena dose de bem-estar.
Quando amamos alguém, não suportamos ver essa pessoa sofrer. Sofremos juntos, mas nunca na mesma intensidade. Ainda mais quando estamos perto. Entre lágrimas de um momento, surgem as pequenas ações diárias que possam permitir um respiro em meio a escuridão.

